quinta-feira, março 13, 2008

O Relato

Faço aqui um relato completo de um nada rotineiro acontecimento.

Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
Dia 9 de setembro de 2007, domingo.
Feriado nacional da independência.


Estava eu jantando com minha família no centro da cidade de Muriquí, durante uma viagem ao Rio de Janeiro que fizemos no feriado da independência.
Foram-nos servidos cinco filés de peixe, seis filés de picanha, duas porções de arroz, uma porção de farofa, duas cumbucas pequenas de molho vinagrete (do qual nunca gostei) e uma cumbuca média de pirão de peixe.
Para alegria dos moradores, um sujeito vestido de camisa listrada branca e vermelha cantava musicas de gosto discutível enquanto as pessoas dançavam (aqui me incluo) animadamente.
Após a refeição, conforme fizemos na noite anterior, eu e meu pai decidimos caminhar até a pousada na qual estávamos hospedados. Minha progenitora, minha irmã e seu respectivo namorado retornaram de carro para a hospedagem, tal e qual na noite que antecedeu o ocorrido.
Caminhamos então, eu e meu pai, por uma estreita rua até o calçadão da praia. Passamos por um show de funk carioca, para o qual pensei em retornar mais tarde com minha irmã.
Já próximos da rua de nossa pousada, que ficava cinco quadras em direção ao bairro, meu velho pai chamou para uma conversa à beira-mar.
Engajamo-nos num dado assunto particular que rendeu ao menos uma hora.
Foi então que os distúrbios iniciaram na forma de um desconforto intestinal.
Insisti ainda por mais cinco ou dez minutos na continuidade da conversa, quando se deu a primeira e mais suave das contrações. Não me parecia algo anormal. Apenas pressenti que devíamos antecipar um pouco nosso retorno bairro adentro.
Caminhávamos ainda sob a luz da discussão que havíamos iniciado e assim prosseguimos até atravessar a linha do trem, passando pela pracinha na qual desembocava a rua de nossa hospedaria, ainda há quatro quadras (n.a: quadras praianas, ou seja, maiores que um quarteirão comum) que formavam um imenso corredor de paralelepípedos parcamente iluminado.
Neste ponto, exatamente há cinqüenta metros dos trilhos foi que senti a segunda contração. Um estremecimento que ascendeu do abdômen para o pescoço, percorrendo toda a minha espinha.
Parei.
Senti como se um gorila estivesse tocando xilofone em minhas vértebras.
- Estou me sentindo mal – Disse a meu pai com a face levemente retorcida e a mão direita pressionando o ventre.
- Por que não disse nada? Podíamos ter ido de carro. – Respondeu ele preocupado.
- Não, não. Foi agora. Estou sentindo algumas dores.
Pelos próximos quinzes passos meu velho prosseguiu com o assunto enquanto eu procurava dar mais atenção a ele do que ao meu estado, que ainda acreditava ser um problema passageiro.
Parei novamente.
Um terceiro tremor me obrigou a contrair todos os músculos. Sem dúvida eu contraí cada músculo existente em meu corpo e instantaneamente senti que estava suando frio. Exigia uma concentração absurda para coordenar os músculos-alvo, que impediam a tragédia eminente.
- Ai!
- É melhor irmos mais rápido.
- Não. Preciso ir num ritmo mais lento... – iniciei então uma marcha quase fúnebre.
- Então vamos andar no seu ritmo. Quer que eu vá na frente e pegue o carro?
- Pegue o carro – sussurrei de forma a desempenhar o menor esforço possível.
Neste momento percebi quanto minha situação era precária ao ver meu pai, que já passara dos 50 anos, desaparecer em disparada pela rua escura.
Faltavam ainda três quadras, contadas a partir do cruzamento no qual me encontrava.
Antes que pudesse reagir, um quarto tremor obrigou o imediato encontro de meus calcanhares e, igualmente, de meu joelhos.
Quase pude sentir minha nádegas indo de encontro uma a outra, num esforço que parecia uma tentativa de sufocar algo ou alguém. Senti que venceria um braço de ferro contra qualquer homem, talvez uma dúzia deles, somente com a pressão e empenho que aplicava naquela região de meu corpo.
Qualquer pensamento que tenha me ocorrido naquele momento foi instantaneamente apagado! Sofri de amnésia temporária, originada do extremo esforço que meu corpo desempenhara em busca da última gota de dignidade que restava.
Como um animal encurralado, olhei para minha esquerda, ainda no cruzamento, para estudar minhas alternativas.
A ruazinha parecia deserta, sendo que logo ao meu lado encontrava-se um daqueles jardins feitos na calçada, com uma grama verde e fofinha que se estendia delicadamente por entre as pedras do caminho de blocos de cimento.
É incrível o que se pode pensar num momento de aflição como este. Logicamente eu nunca imaginaria um lugar daqueles como ideal para aliviar a situação, mas naquele exato momento senti que poderia depilar minha nádega ali sob o sol do meio-dia se fosse necessário. Isto me parecia mais do que natural em vista da aflição pela qual estava passando.
Agarrei-me na esperança de conseguir caminhar por mais três quadras antes de perder meu senso do ridículo e minha elegância.
Num esforço digno de herói, marchei vagarosamente em direção à pousada, ainda com os joelhos totalmente colados um no outro, movimentando o mínimo possível o corpo. Assim prossegui bravamente até a próxima quadra, onde encontrei o ambiente dos meus sonhos.
Deparei-me com o córrego. Que lugar lindo!
Quão gracioso era aquele vaso sanitário imenso a céu aberto! Que emoção!
Parei sobre a pequena ponte que ligava suas margens e imaginei-me imediatamente aliviando meus pesares naquele local.
Foi então que, mais uma vez, aquela contração me açoitou.
Desta vez sem dó alguma, percorreu meu intestino em ascensão para a parte superior de meu ventre, pegou embalo e desceu com toda força em direção ao solo.
Pensei em não resistir. Deixar que viesse de uma só vez e levasse a cabo meu sofrimento.
Neste momento olhei para frente e vi um veículo, um Toyota Corolla prata, estacionado à minha direita, logo à frente, com quatro pessoas dentro que olhavam na minha direção e uma senhora obesa que usava um vestido azul turquesa e óculos, em frente a um portão de metal branco, também admirada. Encaravam-me tentando compreender minha súbita parada.
Mais uma vez a dignidade me chamou pelo nome.
Prendi a respiração, tracionei os músculos canalizando toda a minha energia para o esfíncter anal e, com um último esforço, forcei um movimento totalmente inédito para mim, que denominei posteriormente de “espirrar para dentro”.
Naquele instante tudo parou. Senti que pela primeira vez na vida havia encontrado um concorrente à altura para minha já reconhecida teimosia: meu cu!
Não quero ser vulgar, mas depois disso conquistei uma intimidade com ele que me permite chamá-lo pelo nome sem sentir que estou ofendendo alguém.
Traduzindo para uma linguagem iconográfica, imaginemos um diálogo:
Eu: Isso não vai sair daí na frente dessas pessoas todas!
Cu: Aqui esse pirão não fica!
Eu: NÃO! Tenho que ser forte! Não posso fazer isso com 22 anos!
Cu: Amigo, desculpe. Mas isso acaba agora...
Eu: Isso não será assim! Eu mando aqui e o pirão fica!
Cu: Não fica nããão...
Ele estava certo. Senti que consegui segurar o suficiente para não sujar a roupa íntima com um esforço sobre-humano. Mas algo já ocupava o espaço vago de meu traseiro.
Reiniciei minha caminhada até a hospedagem, já prevendo que a próxima contração traria ao mundo um “ogrinho” saudável.
Apertei um pouco o passo ao sentir que a situação se agravara com um possível contato com a roupa de baixo.
Mais uma quadra fora vencida. Mais uma vez senti que a contração fatal estava a caminho. Meu estômago roncara em alerta.
Avistei o grupo de veículos estacionados que indicava o local de minha pousada. Imediatamente verifiquei que um Palio preto saía de ré da garagem, o que indicava o esforço já tardio de meu velho pai, que logo sairia com o Celta lá do fundo da mesma garagem.
Avistei nosso carro prata logo que entrei pelo portão aberto, que poupara o tempo de tocar a campainha da recepção e aguardar que o segurança sonolento viesse abri-la.
Atravessei a garagem sem olhar para lado algum, passando pelo balcão da recepção que, para minha sorte, estava vazio assim como os corredores que levavam ao quarto.
A sexta contração aconteceu ali. Alguns passos antes da escada de dois lances que terminava em frente ao quarto número 14. Meu quarto. Infelizmente, quando estamos mais próximos de nossos objetivos relaxamos, fazendo com que os resultados raramente cheguem a 100%. Dessa forma, mais uma pausa estratégica e outro esforço de concentração me pareceram demasiadamente masoquistas, estando há menos de vinte degraus e quinze passos do tão sonhado banheiro de meu quarto. Isso poderia ter tornado estável minha situação, que não passava mais dos 80%, mas até para um cabeça-dura como eu esta distância seria uma eternidade.
Encarei os fatos. Cada degrau piorava aproximadamente 3% minha situação, sendo que os 20% restantes permitiram o mínimo estrago em minha bermuda que, obviamente, era branca assim como todo o resto de minha roupa.
Entrei no quarto sem nem mesmo perceber que havia aberto a porta. Minha mãe estava sentada na cama.
- O que aconteceu? – Perguntou-me apenas levantando os olhos enquanto mexia num colar.
- Prepare um ENO! – Respondi marchando direto para o banheiro.

O Banheiro.
Esta foi uma experiência à parte.

Eu nunca, até hoje, havia encarado esta situação.
Para mim, o famigerado “pirirí” era tão real quanto a mula-sem-cabeça ou a heterossexualidade do Michael Jackson.
Quando me diziam “ontem tive um pirirí horrível, tive que correr para o banheiro”, eu achava muito surreal! Para mim não havia algo que fosse tão incontrolável assim.
Pois paguei minha língua.
Entrei no banheiro, tirei a bermuda e senti que o tempo entre sentar, fazer força, soltar o ar dos pulmões num sinal de alívio e ficar ruborizado com os sons subseqüentes podia tornar-se o mesmo. Tudo aconteceu de uma só vez, sendo que o respeito habitual pela ordem, ritual e importância destas ações fora totalmente marginalizado.
O trabalho foi rápido. Nem parecia merecer toda aquela urgência e humilhação. Mas merecia. Não vou discutir.
Rapidamente me livrei dos tênis e das meias. Retirei apenas a carteira e o celular dos bolsos e, ao tomar coragem para checar o estado da cueca e da bermuda, imediatamente lancei ambas no box. Liguei a torneira de água escaldante e deixei que tudo se resolvesse por lá, fechando imediatamente a cortina.
Foi quando me dei conta de que o papel higiênico poderia não dar conta do recado. Chequei o estado da tampa do vaso com uma rápida levantada e, em pânico, tirei a camiseta, que foi atirada na cadeira ao lado com violência, entrei no chuveiro jogando as roupas que estavam no chão para o fundo do box e, só então, tirei os óculos e o relógio que para minha sorte era a prova d’água.
O sabão e a água quente foram grandes aliados na restauração de minha calma e dignidade feridas. Lembrei de dar a descarga depois que já estava completamente isento das lembranças de minhas fraldas dos três anos de idade e de ver que, com um pouco de paciência, a bermuda branca voltara a ser branca e a cueca já estava até com cheirinho de xampu. Pendurei-as com a elegância de um lorde na barra do box e, posteriormente, retirei da saboneteira meus óculos, que se fossem vivos certamente desejariam não enxergar mais nada pelo resto de seus dias!
Sequei-me observando o absurdo que aquela noite havia se tornado. O tênis no chão com os bicos colados e os calcanhares há um palmo de distância, exatamente na posição que permitia o insistente encontro de meus joelhos na esperança de não perder a luta, os últimos 20%, na reta (ou reto!) final.
A carteira jogada em frente ao vaso simbolizava o desespero tal qual o celular, que se encontrava há aproximadamente trinta centímetros da tampa de sua bateria, que disparara de encontro à parede com o impacto que sofrera contra o solo durante o desespero para eu entrar no banho.
Tudo estava bem novamente. Saí de lá esperando pelas piadinhas de meus pais e também pelas minhas, já que conseguira rir algumas vezes da situação durante o banho.
Não me importei com nada disso, pois, na verdade, passei pelo meu primeiro pirirí aos 22 anos com muita dignidade e com a certeza de que lutei até o final.
Apesar da aflição e do estado de quase infância, tudo fica muito bem quando acaba o pesadelo.
Que venham outros pirões!

4 comentários:

Eilor_A_Marigo disse...

Um clássico!

Eilor Marigo disse...

Clássico por que o fiofó não era o seu... hahaha!
Mas que ficou batuta ficou...

Anônimo disse...

você sabia que eu iria odiar né!

Eilor Marigo disse...

Nossa... então falta muito humor aí, viu!! Fala sério!!