Quinta-feira, Setembro 02, 2010

A Ignorância é uma Benção

Hoje encontrei na Internet uma informação da qual duvidei prontamente:

“Deus é desnecessário para explicar a criação, diz Hawking.” – Estadão.com.br

Sinceramente eu, como alguém que leu livros do Stephen Hawking e está sempre ligado nestes assuntos, recebi com muito pé atrás a informação. Justamente ele havia dito tal coisa?

Fui procurar outras fontes:

Terra Notícias - Stephen Hawking: Deus não tem mais lugar na criação do universo
O Globo - Stephen Hawking afirma que não há lugar para Deus na teoria da criação do Universo
Yahoo Notícias - Stephen Hawking: Deus não criou o universo
Folha.com - Stephen Hawking dispensa Deus na origem do Universo

Logo abaixo de cada uma destas notícias vocês encontrarão um bando de gente metendo o pau no cara ou comemorando a “vitória da razão sobre a religião”.

Ainda incomodado com isso fiz o que sempre faço quando desconfio desse tipo de informação: fui buscar a informação original, na língua original e nas informações do próprio autor.

Encontrei algo AQUI, nas palavras do autor, escritas em seus livros.

Ele disse: “What I have done is to show that it is possible for the way the universe began to be determined by the laws of science. In that case, it would not be necessary to appeal to God to decide how the universe began. This doesn't prove that there is no God, only that God is not necessary.” [Stephen W. Hawking, Der Spiegel, 1989]

Minha tradução: “O que eu fiz foi mostrar que é possível que, pela forma como o universo começou, tudo tenha sido determinado [desde sempre] pelas leis da ciência. Neste caso, talvez não tenha sido necessária a intervenção de Deus para decidir como o universo começou. Isso não prova que Deus não existe, apenas que ele não é necessário [falando especificamente durante a formação do universo].”

Ou seja, entendo que ele NÃO afirma que Deus não existe. Hawking diz que o universo desde sempre operou sob as leis da física e que seu início foi tão natural e espontâneo quanto a sua realidade hoje. Não quer dizer também que Deus não tenha dado o pontapé inicial na criação do universo. Se ele fez mesmo isso, então apenas o fez dentro das leis da física, ou seja, a física também pode ser considerada instrumento dele na criação.

Mas não vou ficar me debatendo nos argumentos. Acho engraçado ver como as ciências e as religiões falam quase o tempo todo das mesmas coisas, investigam os mesmos assuntos, nasceram na sociedade no mesmo período e, mesmo assim, não se suportam. E que fique claro aqui que não prego nem por um nem pelo outro, mas acho muito hipócrita a posição de ambos.

Por que Deus não teria seguido (ou criado) as leis da física para tornar possível a vida na Terra ou em qualquer outro lugar do universo?

Só por que é necessário à ciência desmistificar o mundo, não quer dizer que seja obrigatório tirar toda a razão da religião. Da mesma forma, a religião considera conceitos científicos heresia, mesmo acreditando na criação. Oras, se Deus criou tudo, vocês acham que as leis da física também não foram arquitetadas por Ele?

Qual é a vantagem dessa briga mesquinha ciência versus religião que não chega a lugar algum e só atrasa o que realmente é importante: a evolução da sociedade?

Vocês queiram ou não, o mundo precisa de filosofia tanto quanto de cálculos. A ciência nos dá naves para avançar pelo o futuro, enquanto a religião nos dá o mapa para chegar lá com equilíbrio.

O mundo precisa de tolerância! Agora mais do que nunca.

Como diria o cientista e fervorosamente religioso Albert Einstein, “A ciência sem a religião é paralítica. A religião sem a ciência é cega; e quanto mais estudo a ciência e a física, quanto mais eu procuro soluções, mais acredito em Deus.”

Pois é, Einstein, triste época essa em que vivemos. É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito!


*Não deixarei claro neste texto se acredito ou não em Deus, se tenho fé apenas na razão da ciência ou totalmente cético sobre tudo isso de propósito. O que me intriga é a falta de resultados positivos que estas duas instituições mesquinhas geram ao brigar pela razão... ou pela falta dela. Dessa forma a ignorância parece mesmo uma bênção.

Sexta-feira, Agosto 20, 2010

Educação no Presente e no Futuro


Fiz este comentário a respeito do interessante texto do Gil Giardelli para o Site da HSM;

Clique e veja o texto do Giardelli na HSM - "Ensine menos e aprenda mais"

No texto o autor nos deixa uma pergunta interessante para refletir: "Como a escola supera o tempo e o espaço em um mundo imediatista?"

Meu comentário foi o seguinte:

Cada vez mais me parece que a educação moderna caminha para o rumo das comunidades ancestrais: O indivíduo é educado pelo grupo e não mais por um tutor ou pela família.

Em algumas comunidades indígenas as crianças são retiradas de suas casas e passam a conviver num ambiente comum, onde os "professores" não são apenas os mais velhos, mas eles mesmos e o ambiente que os rodeia.

Achei interessante o artigo por que falamos muito do futuro, mas o ciclo de vida da educação caminha para um retorno às raízes da sociedade.

Penso que a solução está em aumentar a cultura geral e ampliar os caminhos da informação, sempre lembrando que é responsabilidade de cada um e de todos nós prezar pela educação das futuras gerações.

Cada vez mais a moral e o respeito serão a base da vida em sociedade!

Cantiga Popular

Conta o folclore que numa cidade do interior do Brasil existiu um garoto muito bom, que desde muito novo trabalhava com o pai numa venda de frutas depois das aulas e ajudava a mãe com o jantar antes de se deitar.

Havia também uma garota muito bonita, chamada Jasmim, que ficou conhecida pela soma da sua incomparável beleza física com uma voz capaz de superar todas as maravilhas do mundo.

Reza a lenda que os dois viveram na mesma época e que entre eles aconteceu a bonita história de amor, que vou contar para vocês agora:

Fidalga e bela que era, Jasmim, a filha do prefeito, residia na parte alta e nobre da cidade. Estava acostumada à companhia das jovens damas das famílias mais tradicionais e ao cortejo dos rapazes, que automaticamente se encantavam pela sua beleza.

Enquanto isso, na parte baixa, vivia um garoto rico de respeito pela família e pelo trabalho, mas pobre de quaisquer outras posses. Não que fosse um rapaz feio ou desafortunado, isso não! Era um garoto gentil e respeitoso, mas sem oportunidade melhor.

Certo dia os dois se encontraram, sem querer, no coreto da cidade. Jasmim apresentava seus cantos durante as festividades da primavera para todos os cidadãos, que assistiam maravilhados aos cantos populares da flor da cidade, enquanto o rapaz entregava frutas numa casa próxima dali.

Como não poderia deixar de ser, Jasmim notou o rapaz e o rapaz notou Jasmim quando este passou pela praça, a caminho das entregas. Foi amor à primeira vista! Durante todo aquele dia não puderam mais tirar o outro da cabeça um minuto sequer

Nos dias seguintes Jasmim pensou naquele rapaz. Ele não parou para ouvir seus encantos inebriantes! Não lhe fez cortejos pomposos ou prestou homenagens! Apenas continuou seu caminho rumo ao trabalho, como um homem de verdade deveria fazer.
Sem saber disso, o rapaz queria transformar sua vida para encontrar-se com aquela linda donzela mais uma vez. Decidiu então que se tornaria muito rico e só se aproximaria de Jasmim quando pudesse lhe dar todas as estrelas do céu.

O tempo passou e Jasmim, ocupada com os estudos, com as festas da família e com os ensaios de canto acabou esquecendo o rapaz. Ele, enquanto isso, trabalhava todo o tempo e fugia de casa durante as noites para observar, sentado num galho de árvore perto da janela do quarto de Jasmim, o sono profundo da moça.

Ambos cresceram com seus compromissos e, como não podia deixar de ser, o rapaz tornou-se um comerciante importante que viajava todo o tempo para cuidar dos seus negócios. Estava sempre para lá e para cá pelo mundo, navegando atrás de novidades para comprar e vender.
Jasmim recusou muitas ofertas de casamentos e convites para morar longe do país, para continuar seus estudos de música e encantar ainda mais as multidões com seu dom.

Certo dia um homem estranho mudou-se para uma fazenda perto da cidade. A fazenda ficava num enorme bosque muito bem arborizado, que se perdia de vista pelas montanhas da região.
Diziam que ele trouxera muitos trabalhadores de todos os cantos do mundo e, na calada da noite, estes se puseram a desmontar as pedras que calçavam as ruas da cidade desde a praça até próximo à casa do prefeito. Como eram muitos, antes mesmo de amanhecer a rua já estava toda poeirenta da terra que sobrara ali. Não havia mais pedras, nem para contar história.

Na manhã seguinte o prefeito quase teve um ataque dos nervos! Ordenou ao empreiteiro que as ruas fossem novamente calçadas na primeira hora da manhã seguinte.
Mas os trabalhadores misteriosos voltaram durante a noite e cobriram a rua com pedras novamente.

No dia seguinte as pessoas estavam maravilhadas! A rua fora coberta, da praça até a casa do prefeito, com pedras brilhantes que refletiam os raios do sol durante o dia e o brilho das estrelas durante a noite!
Ninguém conseguia adivinhar quem pusera as pedras, mas sabiam que os trabalhadores noturnos vinham e voltavam do bosque, sem dizer palavra. Havia boatos de que até mesmo o delegado interrogara alguns deles, mas ninguém sabia de nada.

Naquela noite pôde-se ver a rua toda iluminada pelo brilho dos astros! Enquanto isso, um homem passeava para cima e para baixo num terno branco e com um buquê de flores nas mãos.

Jasmim, que como todos os cidadãos nada entendia, acompanhou com os olhos curiosos cada passo do homem até que chegasse sob sua janela. Conforme ele se aproximava, percebeu que o homem cantarolava a mesma música que Jasmim recitara durante sua apresentação no coreto, o que lhe fez encher os olhos de lágrimas.

Teve certeza que seria ele. O amor da sua vida chegara afinal!

Sabendo que seu pai, o prefeito, nunca deixaria que se encontrasse com aquele homem tão misterioso, Jasmim desceu silenciosamente as escadas de sua casa para não acordar ninguém. Saiu pela porta da cozinha e caminhou até o jardim.

Foi então que o rapaz da quitanda, agora um homem feito e grande mercador, entregou-lhe o buquê de flores e deu-lhe o braço para que caminhassem até o coreto da praça. Lá, sob a luz das estrelas e sobre o brilho da rua, encontraram-se novamente como os dois amantes silenciosos. Dançaram como dois namorados durante toda a noite e decidiram se casar.

Então Jasmim foi morar com seu grande amor na fazenda do bosque, que antigamente se chamava solidão. E dizem que do amor dos dois nascera então um lindo anjo, que dia após dia lhes roubava o coração.

Sexta-feira, Agosto 13, 2010

Cuidados com a Internet!

Ontem mesmo postei aqui um texto denominado “Nem Tudo Que Reluz é Ouro” sobre a “adolescência da Internet” na data em que ela completou seus 15 anos no Brasil.

Enquanto pensava mais profundamente a respeito, encontrei duas imagens de tags divertidas da web para textos e Blogs, que tem tudo a ver com isso. Achei por bem postar aqui para complementar:

Aviso: Este artigo contém informação da Wikipedia, sem fonte ou verificação.

Aviso: Este artigo é basicamente um release de imprensa, copiado e colado.

É verdade que a Internet é apenas o meio e que os culpados pelas discórdias geradas, os erros e acertos cometidos somos nós, usuários. Também é verdade que tais coisas podem acontecer em quaiquer mídias. Mas as mídias tradicionais são regulamentadas por profissionais especializados, órgãos governamentais e não governamentais e ainda pelo público, que se torna cada vez mais seletivo.

Já a Internet tem como característica o fato de ser terra de todos e, como não poderia deixar de ser, terra de ninguém. Aí sobra para o bom senso de cada um cuidar para que essa Babel cultural não tenha o mesmo fim da Babel original.

E você. Está fazendo a sua parte com responsabilidade?

Quinta-feira, Agosto 12, 2010

Nem Tudo Que Reluz é Ouro

Coisa engraçada essa tal “era moderna” que vivemos...

Hoje a Internet completa seus 15 aninhos de vida e percebo que sua fase não poderia ser mais correta: a adolescência.

Tanta gente trafega pelas redes e suas centrais de relacionamento em meio a um monte de informações vindas de todos os cantos e, na fúria adolescente da liberdade de expressão, esquecem de pensar com a cabeça antes de tomar atitudes.

Digo isso por que vejo o tempo todo notícias e mais notícias, “furos de reportagem” que entram e saem do Twitter ou das redes sociais como Facebook e Orkut. Tornou-se muito fácil ser um repórter diário, um reclamão ou um arauto das boas e más notícias, isso é um fato irreversível.

Mas é preciso entender que nem tudo que reluz é ouro!

Muita gente debate as profundas mudanças do mundo e aceita informações truncadas, desconexas e muitas vezes duvidosas como fonte de inspiração.

Eu mesmo passei por uma onda de postagens intensas no Twitter que chegaram a prejudicar relacionamentos reais. Só com o tempo percebi que estas postagens são verdades minhas e apenas minhas ou, às vezes, nem mesmo verdades. As pessoas podem comprá-las ou não, mas o que acaba acontecendo é que algumas dessas “verdades” tornam-se fatos. Não pontos de partida para debates muito longos e profundos, mas exemplos a serem seguidos.

Todo debate é saudável e pode produzir conteúdo a favor da consciência coletiva. Porém quanto disso não é inventado e simplesmente comprado de graça por todos nós, usuários?

A Internet é feita de gente, e gente tem defeitos!

Já postei no meu Twitter (e não apenas uma vez) notícias de grandes jornais e redes de publicações que falavam sobre um mesmo assunto, mas davam argumentos e apresentavam dados totalmente diferentes. Fora os casos profissionais como este existe também uma grande massa de “formadores de opinião” que tornam-se celebridades instantâneas e trazem sua fila enorme de caminhões basculantes para despejar diariamente suas verdades e, pior, para quem quiser ler, escutar... e comprar sem questionar.

E qual é o real perigo disso?

O perigo é o mesmo de colocar um adolescente de 15 anos não habilitado na direção de um veículo: Você não questionou seu preparo e está jogando com a sorte.

Este adolescente pode ser um tipo cuidadoso e consciente que, se fizer coisa errada, pode se machucar. Senão um tipo maloqueiro e revoltado, com discernimento limitado e capacidade para decolar com o veículo sobre um ponto de ônibus lotado.

A grande virtude do mundo virtual é também seu maior defeito: Todos ganhamos o poder de colocar a boca no trombone. (E pelo menos tentar convencer as pessoas das nossas próprias verdades.) Mas nem todos se dão o direito de questionar.

Por isso repito o alerta importante desse texto: Tome cuidado com os fatos, questione-os antes de comprá-los!

Nem tudo que reluz é ouro.

Segunda-feira, Agosto 09, 2010

O Senhor das Especiarias

Contava um amigo meu que numa das viagens que seu avô fez pelo mundo encontrou, em Istambul, numa viela perdida pela cidade daquelas que não vale a pena descrever, uma loja muito curiosa. Nada fácil de encontrar, por sinal. Mas tenho certeza de que isso também fosse proposital.
Dada a fidelidade de seu relato, achei justo que cada um tire suas próprias conclusões.

Quando pousamos em Istambul, decidi caminhar todo o dia em busca de novidades. Não era a primeira vez que me encontrava com tempo de sobra na Turquia e como já conhecia todos os pontos turísticos imperdíveis, decidi conhecer mais a fundo o Bazar Egípcio (ou dos cereais), aquele que também é conhecido como Bazar das Especiarias.
História e arquitetura podem mudar lentamente e fazerem com que visitar algumas cidades do mundo meia dúzia de vezes se torne tedioso, mas as especiarias que encontramos pelo mundo são infinitas.
Cansado de esperar pelo próximo vôo, resolvi bisbilhotar uns becos em busca de algo novo. Foi assim que encontrei aquela lojinha apertada numa ruela de Eminörü, conversando num grego arranhado com um rapaz muito engraçado pelo caminho. Este rapaz prometeu me levar a um lugar realmente novo.
Caminhamos conversando o tempo todo. O rapaz não queria que eu prestasse atenção no caminho e eu, confiando plenamente nas suas boas intenções, resolvi entrar no jogo e continuar engajado naquela conversa sem fim, não dando muita bola por onde passávamos.
Depois de caminharmos por muito tempo o rapaz parou bem em frente a uma loja carregada de cheiros que variavam do ácido e sulfuroso ao acre amargo, que podiam ser sentidos pelo nariz e pela boca ao mesmo tempo. Tudo misturado ao incenso forte que queimava sem parar no balcão.
O rapaz avaliou por um tempo os temperos, sempre mexendo em vidros e pacotes que estavam à mão, até que surgiu de trás das prateleiras um homem atarracado de pele escura e muito, muito velho.
Ambos ficaram em total silêncio até que o homem velho olhou para mim. O jovem prontamente interveio falando algo em persa que meus conhecimentos lingüísticos não permitiram entender.
Dialogaram um pouco naquela língua antes do rapaz afirmar jovialmente (ainda bem, novamente em grego) para mim: “Este senhor das especiarias vai levá-lo à sua loja agora!”.
Caminhamos novamente pelas ruas mais curiosas da antiga cidade amurallada sem trocar palavra, até chegarmos ao que parecia uma casa muito simples.
Ele apontou para mim uma porta lateral do que parecia um ambiente anexo mais antigo que a própria casa. Entrei no quarto com as luzes apagadas enquanto o homem dizia algo para o rapaz, que ficou do lado de fora.
Entrou e caminhou para trás de um balcão de madeira que consegui delinear pela luz da porta da rua, que ficara entreaberta. Quando terminou de acender as três velas no lado esquerdo do balcão pude ver uma grande quantidade de jarros e potes num estilo bizantino, um romano tardio, que deixariam qualquer curador de museu com inveja.
Foi então que o homem se dirigiu a mim pela primeira vez, falando em grego:
- Esta é a loja das especiarias mais incrível de toda Fatih. Talvez de todo o mundo! – Com uma risada gostosa ao terminar a frase. - Aqui você pode escolher as especiarias que mais precisa na sua despensa. Mas é importante que escolha com muita atenção, pois você só pode levar 3 especiarias de uma vez, já que são todas muito raras!
Pensei que fosse algum tipo de brincadeira, mas aquelas peças de arte não podiam fazer parte de um simples joguinho. Notei que não havia nenhuma identificação nos potes.
- Mas quais especiarias posso encontrar nestes postes? – Indaguei ainda pensando como tudo aquilo parecia uma brincadeira que me faria perder ainda mais tempo do que esperar pelo vôo no aeroporto.
- Nestes potes estão todos os temperos que você precisa para melhorar seus pratos. Pode fazer grandes banquetes para seus amigos e família! – Disse com mais uma gostosa risada ao final que, junto com as velas, deixava seu rosto quase infantil.

Ficou parado, esperando que eu reagisse de alguma forma, falasse algo ou tomasse alguma atitude. E, por ter imaginado isso, resolvi agir.
Abri um grande pote que se encontrava bem na minha frente, ao alcance das mãos. Não vi nada ali dentro, estava aparentemente vazio.
Ainda sorrindo o homem olhou para mim e fez um gesto de aproximação, apontando para o pote vazio.
Cheguei meu rosto bem perto do pote e dois segundos depois senti um aroma que dominou todo o ambiente. Um cheiro muito suave de ar fresco, levemente cítrico e doce invadiu minhas narinas. Imediatamente meus lábios se esticaram preguiçosamente num profundo sorriso de satisfação.
Levantei o rosto e percebi assustado que o homem parecia trinta anos mais jovem.
- Este pote está ao alcance das suas mãos para que nossos visitantes não se assustem ao conhecer nossas especiarias. Este é o pote da juventude, que traz ao coração todas as belezas e delicias de viver e ao corpo uma boa dose de vitalidade. – respondeu o homem a todas as perguntas, mesmo sem eu ter perguntado nada.

Percebi então que estava num lugar especial. O homem havia coletado naqueles potes todos os temperos de que nossas vidas necessitam.
Só não sabia o que mais poderia encontrar...
Questionei, por segurança, mesmo imaginando que aqueles potes sem nome deviam ter um propósito:
- E como posso saber qual pote devo escolher para conseguir o que me falta na vida?
- Posso lhe revelar o conteúdo de mais um dos potes, se quiser. – respondeu o homem com um olhar misterioso.
Pensei muito bem sobre qual tempero mais faltava na “minha despensa”. Pensei por muitos minutos enquanto o homem polia um dos potes que estavam no balcão.
Considerei que poderia conquistar beleza, alegria ou paixão sem fim naqueles potes. Não encontrava em mim um consenso sobre quais sentimentos seriam mais importantes.
Como não chegava a nenhuma conclusão, resolvi buscar um tempero que pudesse me ajudar a escolher bem os dois próximos:
- Por favor, o senhor pode me apontar onde está a sabedoria?
Foi então que o homem parou de polir o pote. Com um sorriso ainda mais largo retirou sua tampa e esticou o braço por cima do balcão.
- Apenas um homem sábio consegue fazer a melhor escolha em detrimento de todas as outras necessidades. Aproveite sua sabedoria, pois ela lhe revelará o conteúdo de todos os outros potes.
Aspirei o conteúdo daquele recipiente com satisfação, enquanto percebi que prontamente todos os outros potes começavam a fazer sentido para mim. A alegria estava bem ao meu lado, porém no alto de uma prateleira, onde minha vista não podia alcançar sem algum esforço. A fortuna estava num pote dourado, bem no fundo do balcão, num lugar difícil de chegar. Todos os demais potes estavam devidamente arrumados de forma a facilitar ou dificultar o acesso aos seus conteúdos.
Foi então que voltei os olhos para o homem e perguntei:
- Por que não consigo escolher o melhor dentre todos estes temperos maravilhosos?
Com muita calma e com o sorriso constante no rosto o homem revelou o que parecia ser um segredo para mim:
- Depois de experimentar a sabedoria você pode escolher qualquer tempero da minha loja, pois foi assim que também me tornei o senhor das especiarias. Sua escolha foi sábia e refletida, porém você vai perceber que qualquer tempero que escolher excluirá todos os outros que também são essenciais.

E foi assim que decidi deixar aquela loja sem levar qualquer outro tempero além das já experimentadas jovialidade e sabedoria, pois ambos pareciam manter o corpo e a mente na sua melhor forma.
Saí da loja com o homem ao meu lado. Ele estava mais jovem e me explicou pelo caminho que assim mantinha sua loja aberta desde os tempos mais remotos do império bizantino, sempre procurando novas especiarias pelo mundo.
Eu estava também renovado e agora podia ver Istambul com novos olhos, sem deixar de ser eu mesmo. Era como se a sabedoria dos anos tivesse passado como uma brisa pela minha vida.
E realmente tinha.
Ao chegarmos à loja no Bazar Egípcio o jovem estava lá, esperando para levar-me de volta ao aeroporto.
Antes de sair o senhor das especiarias estendeu a mão, oferecendo-me um frasco transparente que mesmo à sombra do bazar, parecia muito cristalino. Em suas últimas palavras antes de sumir atrás das prateleiras ele disse sorrindo:
- Cada um leva da minha loja tudo o que necessita. Por isso aceite como um brinde este frasco de amor próprio, que sempre o lembrará que minha loja estará por aqui. Esteja você onde estiver!

Segui o rapaz até o aeroporto em silêncio, enquanto refletia sobre todas as maravilhas que estava deixando para trás e nos tesouros que levava agora comigo.
Embarquei pensando finalmente que todos aqueles potes mágicos possuem, fechados, um conteúdo muito maior do que cada frasco traz dentro de si:

Eles nos fazem refletir profundamente sobre a nossa despensa e tudo o que ela necessita.

Decididamente Istambul é um lugar mágico como nenhum outro!

Quarta-feira, Julho 28, 2010

Dos Dias

- Encontrei este texto numa folha solta pelas minhas coisas. Data de 06 de maio de 2004 e traz recordações de um momento muito interessante pelo qual passei. Um momento de mudanças que muito se assemelha aos dias de hoje.
- É um poema bem pausado. Como que escrito por alguém que sente muita dor, mas insiste em escrever assim mesmo. Ode à esperança, talvez? Talvez. Mas realmente não me lembro.
- Se fosse escrito hoje, seria.

Mais outro ano veio
Mais mudanças
Apesar de estarmos ao cabo
Da metade do ano
E das mudanças

Retiro do meu coração
Velhos espinhos
Que me dóem
Não ao retirá-los
Mas pelo vazio que deixam

E novos espinhos
Que penetram
E causam dor
Causam medo
Ao lembrar

Do dia
Em que serão retirados
Dos dias
Que me serão retirados

Quinta-feira, Julho 22, 2010

Velho Amigo

Nos dias de hoje pode ser uma ligação, um torpedo, mensagem na Internet, um bate-papo, uma breve nota, enfim, um gesto de reaproximação.

Mas receber notícias de bons e velhos amigos, pessoas que fizeram parte das nossas vidas e ajudaram a nos construir, é um momento saboroso como poucos!

Sentir um pequeno afago de mãos e vozes que já foram tão próximas e, como diria um verdadeiro amigo meu, “agora estão longe... não distantes! Apenas longe!” é um prazer totalmente diferente nessa vida.

A distância pode acabar com muitas coisas rasas. Mas os laços verdadeiros são tão complexos que nem mesmo o tempo, com toda sua tranqüilidade habilidosa e paciência, é capaz de desatar de vez.

Quando encontramos aquele camarada que não vemos faz 5 ou 10 anos, ou seja lá o tempo que for, o cumprimento que é o mesmo, os papos não mudam e as histórias não se cansam de serem contadas e recontadas a torto e a direito. E o melhor de tudo são as gargalhadas! Podem até mudar de formato e tom, mas ainda estão lá. Guardadas do mesmo jeito de sempre.

E não é a mais pura verdade que as amizades valiosas não mudam?

Já diria Kim Hubbard: “amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, mesmo assim, ainda gosta de você.”

Nem de longe é possível substituir. Não se pode substituir por amores, por sonhos realizados ou nada parecido.

A amizade é um gesto: O gesto de compartilhar, aliado ao desinteresse das ações e ao bem querer.

Há ainda quem diga que é maior e mais forte que o próprio amor. E eu não ousaria duvidar disso, afinal os casais mais felizes que conheço são, essencialmente, bons amigos.

Foi por isso que escrevi este texto assim: Simples, descomplicado, sem começo, meio ou fim. É apenas um relato. Um relato que constrói, como uma amizade.
Uns reencontros de palavras que há muito não se vêem nas relações rasas do cotidiano. Palavras como desprendimento, respeito e companheirismo.

São palavras que não perdem o sentido nunca! As pessoas podem envelhecer, os corpos podem mudar, as vozes, cheiros, sentidos... mas a amizade é sempre jovial.

É a verdadeira fórmula da juventude.

Pois velhos amigos não ficam velhos nunca. Assim como nunca serão simplesmente amigos!

Segunda-feira, Julho 19, 2010

A "Cesta Básica" e o "Efeito Dory"

Administrar a felicidade não é algo fácil. Mas saber o momento de evitar e o de levar a sério o “efeito Dory” é um ponto importante nessa busca.

Sabemos que não existe apenas uma variável para a felicidade, apesar de às vezes parecer. Mas o conjunto da obra é intencionalmente complexo de calcular. Imagino isso por que as coisas que nos fazem felizes mudam a cada ano, mês, dia ou hora.

É comum termos um grande leque de opções para avaliarmos quando calculamos a felicidade, como a saúde afetiva (relacionamentos), financeira, física, mental, profissional, etc.

O mais óbvio é que o equilíbrio entre todas as opções pareça a solução mais saudável para manter a alegria morando ao lado. Seria esta a “cesta básica” da felicidade.

Como somos simplesmente humanos, a tal “cesta básica” pode ser confortável, mas ainda não é o ideal. Buscar sempre um pouco mais de felicidade é a meta de todos nós.

E é justamente essa possibilidade de buscar o “algo mais” que nos torna interessantes para nós mesmos.

Mas é perceptível que, vez por outra, a opção mais distante ou trabalhosa torna-se o pivô de toda a felicidade. Estar em débito com os relacionamentos pode trazer uma amargura difícil de lidar. O mesmo acontece quando a conta do banco fica insistentemente martelando a nossa cabeça por um ou mais meses, principalmente quando aquela meta desejada não foi alcançada.

Cobranças, cobranças e mais cobranças.
Aí fica difícil se convencer ser feliz no curto prazo.

É muito comum aparecer aquele sentimento de carência afetiva quando algo que desejamos muito ficou um pouco mais longe. E ai de quem tentar me desmentir sobre o pensamento que vem acoplado com qualquer tipo de carência: Se alguém disser “calma que você vai conseguir logo” eu juro que empurro do abismo!

Pois é... foi-se também a autoestima, junto com boa parte da cota de credibilidade que você tinha de você mesmo. E como isso é chato.

Nessas horas, quando as outras pessoas não sabem o que dizer, entra em ação o efeito Dory que, na melhor das intenções, atrapalha um bocado: “Não se preocupe! Tudo vai acabar bem.”

Não é lá muito reconfortante ser sincero e assumir que o outro esteja chateado: “Putz, que chato! Estou torcendo, mas entendo seu nervosismo sim”. Pelo menos procuro não chamar ninguém de idiota na cara dura, nem dou uma de Polyana distribuindo alegria ao mundo.

Em momentos como este acho mais saudável recolher a trouxinha e dar tempo para si e para os outros. Nada como passar por todas as fases, da raiva à aceitação, para voltar à ativa. Novinho em folha!

Ajudar a levantar e ficar de pé a qualquer custo pode ser importante quando o caminho para conquistar o objetivo é longo, mas tire seu tempo quando precisar. Também dê tempo aos outros quando for preciso.

Sabendo que é muito, mas muito difícil mesmo, recobrar aquela cota de confiança em si, não duvide que fomos feitos para passar por poucas e boas nessa vida.

Mesmo que seja passar por cima!

Terça-feira, Julho 13, 2010

Elementos das Paixões

Há algum tempo trago comigo a idéia de escrever um livro ou uma série de textos sobre paixões.

Sempre que penso em paixões e sentimentos gosto de fazer paralelos com os elementos naturais.

Acho que depois de ler muitos livros de autores orientais e estudar religiões primitivas, assuntos que sempre me chamaram atenção, desenvolvi esta forma ligeiramente mitológica de abordar e organizar o assunto na minha cabeça para fazer paralelos com as minhas relações. Isso me ajuda a resolver problemas e entender conflitos pessoais.

Trato os sentimentos como seres, que chamo de Gênios, com personalidades que emanam (ou representam) conjuntos de sentimentos. Eles vivem num ambiente lógico e racional, que chamo de Mundo Elemental.

Como nos últimos dias venho fazendo vários paralelos destes, resolvi colocar dois textos sobre dois Gênios bem distintos e bem conhecidos, Fogo e Água, e também um texto onde relaciono-os.

No caso do livro, penso escrevê-lo em narrativa. Mas achei interessante escrever estes textos em poesia, pois tenho facilidade em caracterizar personagens dessa forma e a poesia ajuda o leitor a se “encontrar” nos personagens com mais facilidade e rapidez.

Gostaria de saber se algo assim interessa as pessoas, pois este projeto é um dos muitos que trago comigo faz alguns anos para colocar em prática.

Quem sabe?

O Fogo
A Água
O Ar
A Terra
Fogo e Água
Água e Ar
Ar e Terra
Terra e Fogo